Blomster til dig

como alguns fumantes,sempre tentando parar…

Boa noite

De vez em quando penso na frase da entrevista de Clarice Lispector, “o adulto é triste e solitário”. Pensando nos meus desejos, nos meus sonhos…nos anos anos anos que para alcançar bem precisamos nos dar aos dias dias dias… Em frente ao mar, joguei uma pequena florzinha pra rainha oculta do mar submersa yemanjá que fica grávida de rosas no primeiro dia do ano…na falta delas, minha mãe e minha amiga jogaram uma graxeira vermelha e eu uma Boa noite, uma florzinha pequenina, comum na infância…e saudei as águas que chegaram aos pés e as ondas além mar…

flutuantes

betina stoess, vista em 18/12/2009  no CCSP…na exposição “Congelada no tempo”.

Céu terra antes de ir

Minha solidão foi perturbada. Por um toque de pandeiro…em plena são Paulo. Quase falava de um sol azul. É que céu e nuvens e os sais do sol derramaram-se no quarto numa só. Não mais em coisa só, não como extra-terrestre fazendo contato esforçado. Ao dizer de um céu-terrestre, quero dizer das marcas na pele da queda em terra. Se eu arar mais uma frase perco o vôo pra Salvador.

mas vive-se, vive

e se

vive-se esquecida…

O perigo de estar novamente em vias de reunir num monte everest o que pode ser o amor. A lonjura dessa palavra. A proximidade quando me sei amando sem nenhum poder. Começo amando de tal forma ignorante que parece que algo sei. Algo sei de todas as palavras que nunca ouvi falando. Povoamentos no terreno do seu corpo caminham como se me dissessem, caminham e vão me dizendo. E talvez prefira acreditar nesse mistério – como mistério. Esse apartamento nunca ouviu o meu sonho mais cruel enrodilhando-me enrolando-me enrredando-me os verbos. Ainda não sei o que minhas mãos disfarçam. Meu corpo tem sido experiência de estado totalitário. E nunca dei tanta intenção ao gesto, pois que sempre aceitei ser serva de mim. Ai se volto, se volto os ecos do que alinho vêem à noite vêm à noite o que cego de ver.

É que em todos os lugares esta distância. Esta partida sem que se veja um destino. Mas o destino é o que se deve buscar ver? Não seria aquilo o que se apenas sopra? Onda de ar mais adiante de nós que vamos. Eu vou, mas enquanto isso tomo uma cerveja desnorteante. Devia estar nesse momento dormindo acompanhada da chuva. Ou desacompanhada, já que ela sempre me assusta e não posso também dela ser próxima, ainda mais quando a imagino sobrecaindo uma cidade toda desconhecida e feita de cidades separadas e inevitavelmente juntas. Mas é que não sei bem o que devia. Não sei, ignoro mesmo o que devo devia. Algumas coisas eu devolveria para talvez saber melhor. E se não saber é que for a melhor forma possível? Nem ao menos a pista, me encontro como que num marco médio, sem nenhuma certeza sobre mergulhar no copo, fazer os goles descerem mesmo mais profundos ou beber só por que alguma coisa tem que ser bebida, ingerida nesse tempo que estou desobedecendo. Continuar deliciosamente me desconhecendo? Enganando e ignorando e sofrendo e vibrando a toda velocidade essa imobilidade?

núcleo

Acho-o com tão dificuldade e por tão poucos instantes. Acha-me como se eu estivesse ali, distraída, sugando frutas que me inspiram poções de sementes. E me traz de volta como à beira da areia a espuma faz com algumas algas. Por que estou sempre deslizando? Desmaiando o que não alcanço. Só peço que me afrouxe as censuras, pois que comecei assim a amar o mundo, com essas palavras travas que me levaram a tantas outras outros tantos. Aqueles dos álbuns. E ainda não aprendi a amar o mundo de um jeito novo diferente desse. A língua me adoece de maneira muito sedutora, como a única razão de ser, o máximo, o marco altíssimo. Ela me rouba a mim própria que há muito me desconheço sem ela. A ponto de que quando não o encontro, quando não está me convidando na ponta do dedo, mas me oferece uma noite em frente ao tudo quanto é possível tudo nada sendo feito, vastidão de vida, multidão de mudas escutando o próprio crescer, caem-me águas de tortura

sempre do corpo, do objeto interior que toma conta do cárcere enquanto alguns ares de respiração buscam passagem. sempre do corpo a investida de imaginação para além dele, para um perdido em que me encontre menos perdida, menos patinando em territórios de lagos que salgadamente degelarão, a despeito da água doce e dos peixes de mar doce. sempre do corpo para o corpo essa tristeza que se muda tanto continua tanto. sempre do corpo a instabilidade do desejo, do álcool, do humor e disposição de. sempre do corpo até mesmo essa ausência de dança. por que sempre dele é a invenção de pistas e salões produzindo e reduzindo produzindo e seduzindo e me inundando do que são as águas em mim prantos. sempre do corpo a velha e orfã oferta de pratos. sempre do corpo esse mal estar tomando corpo sempre tornando-se morto:

Álbuns

Alguns minutos com a mão na testa, percebi que minha cabeça é pequenininha…e o peso das coisas que têm sido convidadas a visitá-la me assombrou por um instante. Descobri que fazer álbuns, aqueles dos retratos em preto e branco, como as páginas dos livros tradicionais, acalma…que reunir frases daqueles homens, daquelas mulheres compõem uma oração. Rezo com elas, respiro melhor com eles. Reza e respiração. Fazia um deles quando o Brasil apagou. Fui mais branda pro escuro, pra procura e os tropeços de velas. As chamas enfeitaram a falta de luz, mas alguma coisa amanhecida em mim – e em plena noite – já era suficientemente clara. A despeito da visita daquelas coisas confusas que em sua repetição anestesiam o assombro imiscuído nelas. Ou ao menos inseparável de quem ousa buscar se ver da sua presença-passagem. Chama acesa e em movimento.

pouco por muito

Quero o pouco por que quero o muito. Quero o parco, raso e escasso, quase nada daqui, trocando em miúdos as notas grandes de lá.

Obituário

Faleceu ontem, aos 89 anos, em sua residência na capital da Dinamarca, a baiana Ingrid Klinkby, de insuficiência respiratória, deixando o companheiro franco-dinamarquês com quem viveu seus últimos anos, dois filhos de seu primeiro casamento e três netos. Ingrid viveu entre o Brasil e a Dinamarca desde a infância e afirmava que não tinha nunca conseguido encontrar o pouso necessário, senão nesse trajeto, vôo contínuo no entre-lugar, “entre o prato mais frio e o mais quente”, embora confessasse não trocar jamais um apimentado acarajé por um arenque gelado. Ingrid fez sua primeira mudança prolongada para o país paterno alguns anos depois de formada em Psicologia na PUC-SP, onde começou a trabalhar em asilos de Copenhagen, dedicou-se mais arduamente aos seus estudos de dinamarquês – a língua que seu pai teria preterido, segundo suas palavras, em troca de numerosas nuvens e raios de sol de silêncio – e de Psicanálise. Anos depois regressa para o Brasil, onde permanece trabalhando como psicanalista na cidade de São Paulo durante muitos anos e também conhece o seu primeiro marido, nordestino também imigrado “na cidade em meio à multidão”, como gostavam de brincar. Aos 68 anos, Ingrid, já separada, faz o caminho de volta para a Dinamarca, onde sempre pensava que daria vida à sua velhice. Ou, ali, a sua velhice daria a vida a mais para si. Conhece seu último companheiro, nesse momento. Nunca separados, passam muito tempo longe um do outro, já que Ingrid faz diversas viagens para São Paulo e Salvador, demorando-se no Brasil mais e mais, onde projetava a criação de um espaço em que as trocas intergeracionais tomasse o 1º plano e crianças, adolescentes, adultos e homens e mulheres idosas ensinassem e aprendessem uns com os outros, em turnos em que se alternavam como alunos e professores. Aos 80 anos, Ingrid dá nova vida a uma experiência que abandonara cedo, montando uma exposição fotográfica, toda com fotografias em filmes – já considerada uma antiguidade. As “Chuvas esquecidas”(título de sua primeira exposição aos 23 anos) das fotos da juventude puderam ser relembradas num pequeno álbum. Nas paredes de asilos em Copenhagen e Salvador foram as “Flores para você” (“Blomster til dig” em dinamarquês) que ofereceu aos que se aproximaram, na invenção de uma primavera de despedida. Os seus últimos anos, passou-os viajando pelas paisagens monótonas e modestas da beleza que a marcara sempre, como se a assistisse da janela do carro de seu velho pai ou daquele sonho que acordara na Infância. Era verão frio, quando dormindo sua primeira noite das férias na Dinamarca, sonhava que estava no Brasil e de manhã, misto de susto e alívio, agradecia por que o sonho real continuava e ainda tinha muito o que ver daquele país tão diferente ao seu e que era também uma parte de si.

Aqui, tantas vezes. Bagunçada e conturbadamente, segundos imensos antes do jantar, com as palavras precipitadas do buraco na boca. A boca já não é um buraco, minha mãe? Mas ela insistia em dar para mim essa exclusividade, a de ter um escorredor por onde descia de vez em quando papas de arroz, festa de farinhas se era de riso o incômodo a(r)dor. Até essas horas, com a casa fechada, parece que o ar é de brisa e calor. Cabelos de coqueiros pra lá, sempre pra lá…e o céu com a luz ligada iluminava aqui dentro uma eterna indigestão e a secura no meu corpo foi até quase a vida inteira. Passou pra outros cômodos. Ainda é delicado tocar nessas curvas da memória. Vai me dar um branco sobre branco. Não estou tentando escrever, estou nessas impressões tentando só a pergunta Por que não usar o espaço que reservei para serem os de minhas sombras? Minhas sombras para você, minha mãe. Blomster til dig, pai. Queria te chamar de far com autenticidade. Não consigo ser brasileira, não consigo ser baiana, tão pouco branca dinamarquesa. E como se pudesse bastar o dizer que não estou a escrever, quando já os dois pés que ás vezes são as mãos, pisam para fora de mim. E é ilusão, são apenas deslizes das costuras que apertei bem seguras em toda a residência do meu condomínio de fúrias, relâmpagos/escândalos.

Tirem dela essa leve pele, essa pele de tristeza que leve se
indisfarça na sua posse de corpo e rosto. Deixem-na tentar viver sem
esse caiado, esse manto pesado caído, sem as esteiras obstáculos, os
chãos deslizáveis que tem que contornar, ela e um cuidado
característico.

A possibilidade de pronunciar uma frase sem sentido ou de sentido incompleto. Essa possibilidade sempre me pegou. E fascinou. E a fiz e a fiz fazendo. É como se fazem frases incompletas de sentido revelado, fazendo, simplesmente fazendo. É algo possível de se passar, de se pronunciar, então é. Se só existisse uma maneira única de passar todo tipo de informações e muito mais que informações, pensamentos e sentimentos…frases prontas. Mas não, o que existe é um fazer e o processo deste fazer(…)

A possibilidade de falar frases incompletas, eu ficava aí nessa possibilidade de e de parar e de não continuar. Por que continuar se? O meu andar parecia chegar até ali e.

Contrita e também livre. Assim estou. Mudei para um apartamento no prédio de frente pra rua. Ouço carros, mas na minha rua passam poucos…o que vem mais é o caminhão e os homens se põem na descarga de cimento. E o ar treme.

Dói muito. Dói muito, eu preciso de alguma coisa bem construída que me ajude. De alguma coisa que me proteja dessa desnudez. Quem sabe não se pode construir roupas para alguém, com as partes nuas de uma outra que precisasse demais se dar. Precisarei de alguém que precise demais se vestir e, assim, se revelar em ser. Deve haver um limite para tamanha dor. Uma fronteira entre ela e ela mais amena.

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